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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A DECISÃO DE ESCOLHA


Porém, nada impende de que num vindouro qualquer, quando, ou, por acaso, a realidade não mais condizer com os seus nomes, terão a plena liberdade de se sentirem felizes em permutar pelo nome que lhes satisfaçam ou que a razão social venha a exigir.

Quando nossos filhos tomarem consciência de suas existências onomáticas, dada por nós, acredito, que não irão se decepcionar tanto quanto os Josés, os Joãos, as Marias e Severinas que vivem frustradas por aí afora, com o nome que lhe deram. As vezes criados por única e exclusiva necessidade pessoal de seus pais, por satisfazerem assim, um desejo extremamente pessoal, chegando às vezes até ao ridículo de inventar nomes numa ignorância extremamente e absoluta da verdadeira origem da palavra, ou seja, do nome que passa a ser o mais esdrúxulo, as vezes exótico, as vezes alienígena, e o pior, as vezes, tão grave, que chega a agredir as ingênuas e inocentas pequerruchas que, necessariamente, quando crescidas, quando cachopas são obrigatoriamente levadas a trocarem de nome por não mais suportar o ridículo, a aversão e o estereótipo das pessoas, sem contar, obviamente, com as suas saturadas vergonhas, e com toda a razão.

Do nome de meu pai e do meu se originaram os nomes de nossos filhos; Otávio, que é o nome de meu pai, demos o nome do nosso primeiro filho; poderíamos ter colocado Octávio para evitar a rima pejorativa, que as crianças da época de meu pai, já gozavam com o seu nome, porém, perderia a autenticidade do nome real; todavia, a sua origem mesmo, segundo meu pai, era Octávio. Quanto ao segundo, demos o nome Maurício, este não correria o risco da rima, mas ostentaria - para a maioria das pessoas -, o orgulho idiota do pai, por ver no filho a sua imagem refletida até no nome. Não, não vem ao caso, pois não caí na ilusão da egocentricidade e nem na incerteza da autodeterminação de achar que filhos são propriedade nossa. Cada filho, portanto, com o seu nome, é uma pessoa comum como todas as outras que obtiveram um nome decente, pois em nenhum dos nomes que demos, caracteriza literalmente a figura onomática de avô ou de pai e nem mesmo de Júnior. Eles (os filhos) são neto e filho como todas as crianças que adquirem um nome legal e condizente com a sua identidade de indivíduo.

Portanto, são hoje, pai-filho e pai-avô em nomes de filho e neto em duas gerações, que não levam no nome nem neto nem filho nem tampouco Júnior, mas que levam no sangue o afã de preservar uma sutil sapiência de uma única geração, que vive latente nas entranhas das famílias Fidalgo e Garcia.

Talvez, no vindouro, com a tomada plena de suas consciências com relação aos seus nomes, não venham a abdicar deles, que tanto hesitamos - por não ser fácil tal escolha - em dar-lhes tais denominações; a priori, levou-se em conta a uma realidade familiar vigente, que é, acima de tudo, a superação do pai e do avô com relação aos seus próprios nomes ante as diversas circunstâncias impostas no âmbito social e, por assim dizer, a superação de preconceitos, estereótipos ou aversões do nome que, apesar de não serem comuns, ostentam um elevado grau de aceitabilidade no meio social. Esta é a breve análise que podemos fazer a respeito da escolha de seus nomes. Porém, nada impende de que num vindouro qualquer, quando, ou, por acaso, a realidade não mais condizer com os seus nomes, terão a plena liberdade de se sentirem felizes em permutar pelo nome que lhes satisfaçam ou que a razão social venha a exigir. E assim como, Tistu - O Menino do Dedo Verde -, renegou o seu nome de batismo, ninguém não é obrigado a permanecer com o nome que não gosta.

A propósito, em nosso país não se é fácil trocar de nome, porém muitos poetas, artistas, escritores se felicitam em não utilizar o nome que lhe é de pia, mormente, os poetas árcades. Eu, por exemplo, chamo-me M. C. Garcia, e não, o meu nome propriamente original de batismo que, por sinal, acho muito bonito e que, demasiadamente, admiro e gosto dele (o nome).

M.c. GARCIA - poeta e filósofo
http://essenciasemparadoxo.blogspot.com/
garciamc2001@hotmail.com



quinta-feira, 14 de julho de 2011


 "Só existe amigo porque há amiga e só existe amiga porque há amigo, por isso, o meu melhor amigo é minha amiga que me tem como amigo."


Há muito busco encontrar um amigo de verdade, e decorrido mais de quarenta anos de vida desvendo que só consegui encontrar amiga. Verdadeiras amigas. Amigo, porém, sempre me deixaram em dívidas suas ações.

Se amigo já era uma coisa rara, agora, é que parece cada vez impossível. Costumo dizer que na vida o máximo que se pode ter é co-léguas e olha lá!

Orgulho-me de ouvir meu pai dizer que teve (não tem mais) muitos amigos que outrora os escolhia para ser padrinho de seus filhos. Muitos compadres meu pai conquistou. Compadres pobres, compadres ricos, compadres vizinhos, compadres amigos. Quão bela época fora essa que mesmo não tendo vivido sinto admiração e até saudades. Pode!?

Não falo do amigo pai, do amigo irmão, do amigo filho, do amigo próximo. Falo do amigo sem nenhum laço de família. Daquele amigo do acaso que surge faz o bem e de repente desaparece misteriosamente e deixa aquela saudade profunda com uma sensação de que não se consegue discernir se foi sonho ou realidade. Aí, é que é amigo! Não exigi nada em troca.

Acredito no amigo que partiu; no amigo distante que, de quando em vez, se recebe uma carta repleta de surpresa falando da sua saudade e do seu sucesso. Infelizmente, hoje, sequer escreve mais cartas. Hoje, quase tudo se resolve através de um telefonema; escreve-se e-mail; conversa-se pela Internet. Tudo agora é virtual e até mesmo os próprios amigos. Talvez, uma forma concreta para se conquistar um amigo diferentemente daquela outra época.

O amigo próximo é quase sempre um problema ou um solucionador de problema. Afinal, amigo é para isso? Há aquele que passa a vida inteira se lastimando no intento de sensibilizar o amigo para salvar-lhe da desgraça. Há aquele que vive de aparência possuindo o que não pode e quando acha que pode, conta com um grande amigo apenas para dá solução a seus problemas contraídos, geralmente, com irresponsabilidade. Há o amigo desempregado que não se cansa de narrar a sua desgraça como se ele fosse o único a ficar desempregado aos quarenta e cinco anos de idade.

Busco o amigo que diz siga meu exemplo: não contraia dívida apenas pelo afã do ter isso ou aquilo, simplesmente, porque o ditador de regras lhe incutiu na cabeça que possuísse algo além daquilo que não se pode ter, negando-se do que se pode ser com poder. O amigo que diz: ajude o estranho mostrando-lhe o caminho de nunca cair em desgraça. Ensine-o a não contrair dívidas, mostre-lhe viver as coisas reais de que se pode viver sem cartão de créditos, sem cheque especial, sem carro principalmente do ano, sem roupa da moda, sem perfume francês, sem apartamento na zona sul, sem casa na beira da praia, sem ir a shopping center...

O amigo não é o que lhe tira do sufoco, mas o que lhe orienta como sequer entrar nele. O amigo é o que aparece do nada e não pede nada em troca; não é o que está sempre presente sabendo que pode livrá-lo da desgraça é o que age misteriosamente sem que se saiba para não acostumá-lo de estar sempre por perto.

Só existe amigo porque há amiga e só existe amiga porque há amigo, por isso, o meu melhor amigo é minha amiga que me tem como amigo. Acredito que amigo existe apenas nessa condição. Porém não acredito ter amigo, mas que poucos podem dizer que tem amigo, pois minha amizade limita-se às mulheres que revelam geralmente seus segredos para mim e não me pedem nada em troca, ao contrário, me doam até o que já possuo em excesso e me contenho apenas com as suas amizades.


M. C. GARCIA - poeta e filósofo -e-mail: garciamc2001@hotmail.com
 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O HOMEM FELIZ

 Essiib desfaz-se numa longa e gostosa risada e sem entender o arrebatamento extasiante do seu namorado Luzelind se deixa envolver-se pela aquela alegria indescritível de Essiib e sorriem felizes como a eternidade do Amor em Vinnícius.


A infelicidade de Narciso perdura por geração e geração por via normal dos destinos da humanidade através dos indícios narcisistas da adolescência, isto é, em muito menos graus de agressão à vida; assim como, o inexorável destino de Essiib, quando descobriu no limiar da sua adolescência, ao espelho, que a sua fisionomia não seguia o mesmo padrão de estética, em vigor, regido pela grande maioria dos seus amigos. Eis que Essiib cria no âmago do seu íntimo uma intransponível barreira de traumas e preconceitos de si.

Essiib era brasileiro. E em qualquer lugar do mundo em que chegasse, estava explícito em sua face o retrato de uma raça e, ao mesmo tempo, a denúncia da sua raiz genealógica na miscigenação do seu povo: um pouco de índio, de negro, de branco era Essiib. Uma união de raças de nome Essiib.

Longe da beleza de um Narciso e mais distante ainda da fealdade da Fera, Esssiib era um garoto normal como todos os garotos da sua idade em qualquer lugar do planeta, mas que entrava na sua adolescência preso aos paradigmas de estética; por se preocupar exacerbadamente, com os seus traços facial, onde o que mais o incomodava era o seu lábio inferior o qual se avantajava em espessura e queda ao superior que, em verdade seja dito, em nada se distinguia um do outro. Uma distinção puramente explicada hoje por Freud. Mas que muitos Essiibs passarão despercebidos mesmo. Essiib, ao espelho, viu-se um Narciso às avessas e criou repulsa, como aquela Fera, querendo se excluir de si numa inocência desnarcisista.

Certa vez, Essiib por descuido viu-se ao espelho e olhou-se no espelho dos seus olhos; e os olhos nos olhos, no espelho de si, eliminaram o que era de fealdade existente em si: os lábios grossos, o nariz achatado, os cabelos crespos, a pele morena ora parda em harmonia da perfeição estética se fez no seu mais profundo íntimo. E os olhos nos olhos. O espelho no espelho de si atingiu o infinito da sua beleza interior, mas a ironia desfez o reflexo na primeira esquina do destino e quebrou o espelho, quando Essiib se desentendeu com um colega seu de escola que o xingou de beiçola. Essiib tomado de cólera retribuiu, não exatamente com xingamentos, mas através de socos e ponta-pé investindo-lhes contra o colega indefeso, que sem esperar por repetina reação, fica caído ao chão. Não se sabe como. Essib levara um soco na boca.

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21.07.97 - MC GARCIA - Poeta e Filósofo 
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quarta-feira, 11 de maio de 2011

REFLEXÕES EM DÉCIMAS POÉTICAS

Vos peço Senhor que me guie agora
Nas palavras que saem da minha boca
Que fale o silêncio, não minha voz rouca
E que a vós o teu perdão implora
Desde hoje e sempre como em outrora
Neste meu sentimento quão sofrido
Desses erros que tenho cometido
Onde quem mais sofre é o meu coração
Venho aqui a vós pedir-lhe perdão
Por isso, a vós, suplico arrependido!

Busco cumprir por este mandamento
Que é todo em decassílabo feito
Onde procuro agora ser perfeito
Pra ajeitar meu direcionamento
Quando chegar a verve no momento
Vou seguindo a metrificada trilha
Porque sinto que meu ser todo brilha
Querendo criar a minha canção
Que pode servir até de oração
Posto que sou poeta, jamais ilha.

Não consigo cumprir Teus Mandamentos
E passo em decassílabo a escrever
Ando a duvidar até do meu crer
E assim tenho vivido alguns tormentos
Eu vos peço, meu Senhor, os teus alentos
Pois desacredito na lei humana
Posto que, ela, a todos nos engana
Criada em detrimento só de alguns
Ficam de fora as pessoas comuns
E o poderoso pousa de bacana.

Eis, em decassílabo, o meu poema
Pra ver se encontro algum discernimento
Em nome de meu fértil sentimento
Afirmando de vez o meu dilema
Que vós, Senhor, meu Deus, és o meu tema
Por só acreditar em Ti demais
Indo contra mim, menos meus rivais
Porque vós sabeis todos meus caminhos
Em que vaguei semeando os espinhos
Assemelhando-me aos marginais.

M. C. GARCIA é poeta e filósofo 
23/12/2008
http://essenciasemparadoxo.blogspot.com - gaciamc2001@hotmail.com


segunda-feira, 4 de abril de 2011

SÁBIA DESPEDIDA



 "Até que a morte os separe, ou, até que as três décadas se consumam."







Pois é, e tudo passou como se fosse um verdadeiro sonho de 3 segundos, trinta dias, ou mesmo de trinta anos. Não, aqui, nada é como se fosse, verdadeiramente, tudo é, foi e existirá mesmo entre sonho, desejo, expectativas, conquistas, decepções, realizações, afirmações e negações; renúncias constantes, opções únicas e exclusivas, prioridade unilateral, onde não se pode questionar o óbvio ululante, por que o que se foi acordado, acordado estar pelo compromisso da existência temporal de trinta longos anos ou mais, enquanto vividos intensamente, porém quão efêmero, quando extrapolado pela constância da não ansiedade e tudo renasce para uma nova existência de dor, de perda, ou, de amor e de ganho.

Contudo, quem vai determinar essa linha é o próprio tempo dentro do preenchimento das lacunas inexoráveis que irão existir e que deverão ser administradas ou, que já deveriam vir sendo administradas com bastante antecedência, senão, o choque da perda é muito maior do que o impacto do ganho.

Dependendo do referencial, para uns, a grande maioria, tudo é uma grande perda. É possível, se conviver como se fosse matrimonialmente com um ser e de repente se ver largado, mesmo acordado que esse laço estava determinado a ser desfeito? (até que a morte os separe, ou, até que as três décadas se consumam). Assim é a realidade dos que doam a sua vida em nome do seu ofício, após labutarem trinta, ou mais anos, como funcionário público civil ou militar. Quantos e quantos terminam por preencher a perda, a lacuna com a doença mais clássica do nosso tempo, o tal estresse, ou senão, a melancolia, a depressão, o aperreio e outros males tantos, cada vez mais inusitados, nesse contemporâneo mundo no qual vivemos denominado de nova era.

O problema é a falta de eco àquilo que antes se fazia com tanto zelo e esmero, onde tudo estava programado para dar certo, igualmente a uma máquina, um trem, sobre os trilhos do sempre programado e estabelecido “destino”, onde as curvas não precisam de esforço nenhum para se atingir o objetivo. E quando se veem a guiar o seu próprio destino diante uma infinidade de tempo disponível para administrá-lo, se tornam incapacitados e vencidos pelo monstro da rejeição! Diga-se de passagem, que tudo não passa de uma rejeição psicológica, porque é justamente nesta hora em que o mundo espera por uma boa e sábia resposta individual ou pessoal, digo ainda, um posicionamento autônomo, uma atitude inusitada e independente, para mudar tudo que há a seu redor, porque agora, tem um trunfo poderoso que é o belo e maravilhoso TEMPO inteiro a seu inteiro dispor.

Sabe aquela história do passarinho que viveu o tempo todo preso, e quando se abre a porta da gaiola ele continua, ali, “preso”, como se não mais tivesse asas para voar no espaço infindo da liberdade; e aquela outra, do elefante que é preso quando pequeno, por uma corrente e, cresce e fica forte, mas continua com a mesma corrente de quando era pequeno, desconhecendo o poder da sua força hercúlea. Certamente, muitas vezes somos todos passarinhos e elefantes presos em gaiolas e correntes socialmente imaginárias, impostas pelas convenções.

O outro referencial ainda muitíssimo raro são os que quebrarão os grilhões e verão as portas da caverna, da caserna, da taberna, literalmente abertas para resgatarem o tempo perdido naquilo em que o ofício ou o mito lhe “cerceou”, (por vezes, um compromisso selado e/ou por juramento até), muitas vezes num átimo de devaneio, em querer ser, enquanto pessoa sonhadora e inacabada de desejos e realizações, algo mais e mais daquilo que todos somos capazes de sermos por nós mesmos, em nome do amor, da simplicidade e da solidariedade naquilo que quisermos ser. Isto é, tudo na hora em que está a se despedir da amada ou do amado, do emprego, da ilusão ou da própria vida de um ente querido nosso.

Há de se ter sabedoria para aceitar as despedidas que a própria natureza nos impõe. Mas afinal, quem é que se prepara para a morte de seu ente querido? Que eu saiba, nem eu, nem ninguém! Mas assim, é que é despedir-se sabiamente.

M. C. GARCIA é poeta e filósofo
http://essenciasemparadoxo.blogspot.com - gaciamc2001@hotmail.com

quarta-feira, 9 de março de 2011

MENSAGEM ÀS MULHERES




 “Mulher, tu és a origem de ti e até de mim. Por isso, és o princípio sem fim do amor, no amor e pelo amor”





Há coisas pequenas na vida que são de um valor incomensurável e de suma importância para as pessoas. Às vezes, até a necessidade de extrapolar o óbvio mesmo diante de tanta obviedade existente é o suficiente para se conquistar esse valor quão desmedido.

Reflitamos, pois, sobre o Dia Internacional da Mulher, 08 de março. Data em que as mulheres no mundo inteiro são lembradas. Diga-se, apenas, lembradas. Porém, sabe-se que ainda há muitas, muitas e muitas mulheres que apesar de serem lembradas não se lembram, não sabem, não entendem o sentido e a importância dessa data, posto que, tudo parece quão midiático e propagandístico e menos prático e ágil enquanto realidade pura existente.

Porém, nada disso impede do que vou discorrer aqui. Porque importa saber que o Dia Internacional da Mulher existe e é propagado pelo mundo todo, mas não para todo mundo. Diga-se, para toda mulher.
Ciente, dessa data, emito pelo celular a seguinte mensagem: “Mulher, tu és a origem de ti e até de mim. Por isso, és o princípio sem fim do amor, no amor e pelo amor”. Isto é, para vinte e cinco mulheres, inclusive, à mãe dos nossos filhos. Todas elas, sem exceção, se sentiram arrebatadas, a priori pela surpresa do teor da mensagem que a coloca como superiora a tudo e todos só pelo ato sagrado de conceber a vida e de amar, mas que, por nenhum momento, não se vangloria disso, por isso mesmo é que reina então o seu poder em sapiência e taciturnidade de mulher.

Desta feita, outras, extasiadas de prazer e de satisfação pela exclusividade de se verem elogiadas, por um ser não menos homem, porém mais poeta, por dotar-se de sentimento às coisas sensíveis da mulher e perceber, como homem, e da sua des-importância no reino e no poder de conceber a vida. Digo, elas, ante a mensagem óbvia, mas dita, com poder de sentimento poético, elas deixam fluir o sentimento-mais-que-sentimento de mulher, mãe, concebedora da vida através de mensagens várias mais ainda arrebatadoras: “Nossa, um anjo em forma de mensagem!” “Obrigada, por me colocar nesse universo tão fascinante da poesia” “Obrigada pela mensagem!” “Obrigada pela poesia. É linda!

Desculpe pela demora. Foi a correria do dia-a-dia que me fez esquecer!” “A cada dia agradeço a Deus pelo amigo que tenho. Você mora no meu coração e me faz muito bem!”. Sem falar daquelas que me ligaram a me encherem de palavras bonitas e agradáveis a qualquer ego humano fascinadas pela mensagem. Quanto à mãe dos nossos filhos, esta me agradeceu em ato de mulher mais-que-mulher por me dar o privilégio de perceber a origem da minha vida através dela e em dois filhos saído do seu ser carnal.

Certo de que fazia o meu papel de poeta solidário ao Dia Internacional da Mulher ao enviar a mesma mensagem para todas as mulheres da minha agenda telefônica, não sabia o poder de exclusividade que cada uma teria ao obter a mensagem. Foi quando obtive de uma delas a cobrança para que eu a enviasse para si também a mesma mensagem; e de uma outra, a carga de ciúme por não admitir que a sua amiga - e também minha -, obtivesse a mesma mensagem.

E para aquelas que não dispunham de aparelho celular para que eu a enviasse essa mesma mensagem, li, em plena sala de aula e falei por telefone para várias delas; e a muitas outras mulheres que muito devo e muito tenho de agradecer muito mais pela minha existência de ser. Destaco aqui aquela que me tirou das suas entranhas e me fez antes de tudo existência humana repleta de virtudes e de falhas; assim como as que estão na minha lista telefônica, quanto as que não estão e sequer as conheço, mas que certamente irão dá origens há tantos outros homens fracos, recalcados, crápulas, machistas e tirânicos – promotores da guerra demasiadamente psicológica - nesse dia e em todos os dias da sua vida, independente do internacional dia da mulher. 


M. C. Garcia (Natal – RN)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

OTIMISMO UTÓPICO

Se, assim que nascêssemos, tivéssemos a certeza plena de que morreríamos um dia, ou seja, de que todos nós, temos como destino inexorável, a morte, a princípio, não nasceríamos. Morreríamos, ainda nascituro. Isto é, antes mesmo de nascermos, abdicaríamos felicíssimo a nossa chegada à existência terrena. Mas graças a Deus - o nosso supremo criador -, todos nós, sem exceção, tomamos por sábia opção divina a preferência em viver, mesmo que perigosamente, fantástico mistério que é a vida e que ela nos impõe e que, ao mesmo tempo, o destino nos omite sempre e sempre a vivermos na iminência da morte, feitos verdadeiros moribundos esperançosos em viver na vida e pela vida. Tudo isso, pelo simples fato de sermos dotados de um otimismo inato, adquirido ainda, antes mesmos da nossa concepção e da nossa aparição precípua a terra, para nos tornar Otimistas Utópicos natos; um otimismo emanado no contato com o que é denominado de sociedade ou meio social.
 
Diga-se otimismo utópico como sinônimo de sonho, de perseverança, de desejo e de esperança como em uma ficção da qual se faz realidade, através de uma realidade virtual, ainda muito antes do que se era esperado, isto é, envolto de amor, fraternidade, e acima de tudo, de um altruísmo que se chega a ser mais que transcendental é divinal.
 
O otimismo utópico aqui, trate-se mais de uma abstração positiva que eleva o espírito humano, quando ao compartilhar do que existe de mais belo e mirífico em toda a sua existência, que é o amor ao próximo e o amor a si mesmo, mormente quando se refere a sua relação social. É, portanto, o otimismo utópico, o único alimento constante que se pode ter para conseguir a total realização dos objetivos, dos verdadeiros ideais que todo e qualquer homem, literalmente social, almeja alcançar.
 
O otimismo utópico, do qual todos somos dotados e revestidos de perseverança e altruísmo, é o que transformará toda e qualquer sociedade. Diga-se passagem, a sociedade da qual tem como filosofia econômica o "capitalismo selvagem" que leva como essência o extremo egoísmo dos hipócritas capitalistas, os quais, só pensam em si e se utilizam do provérbio maior que é "venha a nós, e ao vosso reino, nada" sendo esta a sua oração diária de seu afã, a discriminar e a arrasar a cada segundo no mundo, a todos e a si próprios, conscientes e inconscientemente com e em um genocídio premeditado pelo sistema, "capitalismo selvagem".
 
Só uma grande dose de verdadeiro altruísmo e de solidariedade é que se dá a verdadeira essência genuína do otimismo utópico, do qual se é fortalecido, por muitas dessas dádivas para extinção absoluta do capitalismo selvagem, que ora permeia quase todas as sociedades que assim se dizem democráticas, através de um capitalismo que se faz cristalizado pelo egoísmo que tanto tem afligido e desmoralizado, mormente, classes menos favorecidas da nossa sociedade. O otimismo utópico, essencialmente altruísta fará com que renasça no âmago de cada sociedade a verdadeira educação, a verdadeira saúde, a verdadeira moradia, a verdadeira segurança e, como supra-sumo dos problemas exclusivamente sociais, por fim, o verdadeiro trabalho de que todo homem precisa, para se sentir verdadeiro cidadão respeitado e digno, e não, um homem ou um povo sofrido e oprimido...
 
Contudo, tudo isso só será possível, quando a sociedade como um todo conseguir entender e tomar consciência plena do que é o verdadeiro significado desse OTIMISMO UTÓPICO o qual tem como essência o altruísmo que grassa no coração e na mente de todo povo e de toda uma nação, para assim poder Ter o que é o verdadeiro cidadão. E tudo não mais passar de pura abstração para se transformar em realidade absolutamente concreta. Assim como a certeza de que, sem exceção, todos um dia iremos morrer. Isto é, apenas com uma grande ressalva, de que iremos partilhar com toda a certeza, de um paraíso reservado por Deus, longe deste autêntico orco que os homens o denominaram de sociedade "capitalista".

 
 M. C. Garcia (Natal – RN)
22/09/94

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

RAIVA EM CINZAS

O que é a raiva? A raiva é uma "caixinha de surpresa" que, muitas vezes guardamos no fundo do nosso coração para nós mesmos. Isto é, geralmente, de forma inconsciente, por sermos artificialmente vingativos e guardarmos rancor com facilidade. Aquele que não quiser ser surpreendido por si próprio com a tal "caixinha de surpresa" que procure eliminar de uma vez por todas a raiva que lhe aflige a vida, a alma. Porque a raiva que às vezes possuímos, nem sempre sabemos o que nela contém em sua essência. Sabemos apenas, para que fim a desejamos utilizar, mas desconhecemos por total os efeitos, os transtornos que ela pode nos causar à nossa própria existência. É a raiva um vírus criado pelo próprio sentimento humano - o laboratório do mal - o qual tenta corromper, a qualquer preço, a qualidade inata de sermos bons. Tal vírus, que corrói, que trucida, que mutila os sentidos do ser...

Se a raiva, um dia, chegar a sua vida - a pior das raivas. E ela quiser se apossar do seu coração e quiser fazer morada, não a deixe, a expulse abruptamente e jamais deixe que isso aconteça. Faça de tudo para se ver livre dela, e se isso vir a acontecer, a elimine por total de seu coração, da sua vida, pois toda e qualquer raiva, por menor que seja, é nociva à alma. É a raiva uma coisa desagradável e qualquer teor dela no coração é maléfico à alma e faz perder o que possuímos de mais belo e harmonioso em nossa vida - os nossos sentidos. Pois são estes que nos faz sentir bem, alegres e saudáveis e que nos faz com que vivamos harmoniosamente felizes.

Transforme a sua raiva em cinzas. Desabafe o seu ódio, o seu rancor e elimine, de uma vez por todas, o vírus que consome o seu coração, a sua alma e os seus sentidos. Para eliminar mesmo a sua raiva escreva tudo que sente do fundo de seu âmago; escreva sobre um papel, um pedaço qualquer de guardanapo, revista, jornal aproveitando o mínimo de espaço existente, mas escreva. Escreva preenchendo todos os espaços do papel e esvazie do seu íntimo toda a sua raiva. Escreva, escreva, escreva até não mais ter o que escrever, o que desabafar. Escrevendo tudo que sentir, mas tudo mesmo, sem deixar sequer vestígio algum e absolutamente nada. Até sentir-se totalmente aliviado, com a alma calma e a consciência tranquila; e a visão, a audição, a respiração, a pele, o olfato a se encontrarem em perfeita harmonia, fazendo assim o eu-profundo gozar da eterna paz que só o amor pode proporcionar. E, quando se sentir profundamente de que não há mais o que desabafar e as lacunas do papel já estiverem por completo preenchidas. Pegue de tudo que escreveu, que desabafou, mas de tudo mesmo, com muito cuidado para não se esquecer, nem de deixar pelo chão esquecido, sequer qualquer pedaço desses escritos e com o auxílio de um fósforo em chamas, se deleite, assistindo prazerosamente, sem rancor, sem ódio a sua raiva transformar-se absolutamente em cinzas e esvair-se numa nuvem de poeira ao vento e, assim, perder-se no infinito do esquecimento.....



 M. C. Garcia (Natal – RN)

22/09/94

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

PRESENTE À GARCIA

(Faça o seu Natal diferente)

Desfaço-me da arraigada tradição de mais de quinze anos e convido a prole para seguir comigo o inusitado que a vida nos oferece a todo o momento, porém por uma questão de se não ousar, termina por desperceber muitas coisas em nome do poder da convenção ou simplesmente por causa da rotina, do comodismo apenas; de repente o tempo passou e sequer se sentiu quão gratificante era viver o inusitado que acontece belamente a nossa volta por um pequeno, mas significante momento.              
Ousamos.
 Era véspera do Natal de 2004, e sendo eu de Natal, queria sentir que presente a Cidade proporcionaria para mim, nossos filhos e a mãe deles. Isto é, oferecer-nos algo que transcendesse o convencional, o enfadonho e repetitivo “amigo secreto”. Este, geralmente, realizado sem reflexão alguma entre familiares e amigos que permutam eternos presentes de sentidos efêmeros e que sequer traduz o sentimento da festa em si, nem tampouco para quem o recebe, visto que “gosto não se discute”. Em se tratando de gosto, aqui é onde está a chave do problema da grande maioria. Isto é, um problema que tanto envolve criança quanto senil. Ou seja, ninguém consegue adivinhar o gosto de ninguém.  E tendo eu o gosto mais explícito possível que até você, leitora, pode perceber; o incrível é que ainda assim o “amigo secreto” não capta. Por isso, prefiro a secreta amiga ou secreto amigo do meu discutido gosto, ao invés, do repetido desgosto do meu amigo secreto.
    
Eram 20h, saímos com destino à Cidade Alta, o centro de Natal. A prefeitura, com apoio assíduo da governadora Farias, a qual, como uma senhora dona de casa tem arrumado a cidade desde que fora prefeita por dois mandatos, com isso tem proporcionado para os natalenses o autêntico “Presente de Natal” realizando e investindo na cultura nesse período natalino. O exemplo é o Auto de Natal que já vem com sua quarta edição se apresentado no Palácio da Cultura e por alguns bairros periféricos da cidade, diga-se de passagem, um belíssimo espetáculo que tem levado milhares de pessoas a reviver sua cultura.
Infelizmente, às 20:30h, o Auto de Natal já encerrará. Mas a Praça André de Albuquerque continuava ornamentada e a festividade natalina continuava em alta. Dois telões transmitiam propaganda do patrocinador e um palco apresentava o “João Redondo” de Chico Daniel e, na sequência, apresentava-se a banda de um dos irmãos da família Galvão que apresentava uma miscelânea musical. Às 22h começava a missa na Igreja Santo Antonio, a do Galo.
    
À Igreja, fomos os primeiros a chegar, apenas o eco e o vazio nos intimidavam.  Sentamos no último banco da esquerda, dado à facilidade no encerramento da cerimônia e à boa brisa que fluía gostosamente àquela hora da noite. Porém, logo à entrada da porta central, aparece uma viva-alma. Era a jovem responsável pelo jornalzinho da missa dominical entregue em plena sexta-feira para missa que logo logo aconteceria. Mais adiante, de mesma aparência jovial da mulher, um jovem arruma o altar. Minutos após, aproxima-se da gente, e solícito nos convida a conhecer a Igreja e o interior do convento. Visitamos vários setores, mas o intento do jovem cicerone era nos apresentar a foto de Frei Damião. Percebo que ele não era muito habituado àquele ambiente, apesar das longas datas que se dizia está por ali, desconhecia o local exato onde o Frei se encontrava. Foi quando ao retornamos, vimos Frei Damião acima da porta principal por onde havíamos entrado. Finalmente, nos levou à sala de confissões, por sinal, moderníssimo confessionário, que me fez lembrar a redoma em que a santidade o papa João Paulo II costumava ficar quando visitava algum país. Um espaço todo em vidro. Fortíssimo vidro. Vidro blindado. Fora como eu via aqueles dois confessionários, com duas cadeiras em cada um dos seus interiores. 

Quão moderníssima também é a forma de confissão: frade e pecador dentro do mesmo espaço, um vendo o outro, sem mais aqueles sussurros de um homem por trás de uma grade numa redoma escura. Contrastava-se o aparato de vidro com a antiquíssima madeira escura que revestia todo o interior da igreja. Mas o curioso de tudo é que eu sentia que nada era obra do acaso. Visto que, anos pretéritos e horas antes eu havia visitado a igreja com a prole para me certificar do horário da missa. Onde adentrei o lugar e fui até a porta central, do lado esquerdo, só para admirar a pracinha arborizada que fica entre a Igreja e o convento. 

Sempre achei curioso aquele lugar e meu afã era conhecê-lo.
Observei atentamente que no alpendre se encontravam garotas e garotos bem à vontade sobre o murinho do alpendre. Porém, agora, estava tudo fechado e o mesmo vazio, e o mesmo eco a me intimidar.
A Igreja estava repleta de caras e de algumas almas novas tal qual o ano que se aproximava. Eu, a mulher e os meninos estávamos em família. Digo, em família denominada Garcia. Como já disse, estávamos no último banco à esquerda da igreja. A mesma jovem da entrada, a que entregava o jornal, desenvolve uma conversa com a mãe dos meninos e percebo que se trata de um convite. Segundos após, fico sabendo que o convite é destinado à família Garcia. Ou seja, fomos todos intimados a comparecer ao altar. Pois na hora das oferendas seríamos nós os convidados a fazer a entrega no altar mor. Ou seja, quatro objetos para justamente quatro pessoas: eu, Marly, Otávio e Maurício. A família. Este fora indubitavelmente um convite à Garcia. Ao passar com a oferenda (uma bacia e uma jarra – não sei se continha água ou vinho) pela jovem, lhe agradeci pelo belíssimo presente de Natal. 
(Do Livro: CRÔNICAS DE UMA CRÔNICA VIDA - M. C. Garcia, - garciamc2001@hotmail.com / http://essenciasemparadoxo.blogspot.com)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

CANTO E DOR


Quando canto, digo EU
Expressando-me em português;
Quando falo, sofro “AI”
Expressando-me em inglês.

O bom da vida

O bom da vida é namorar sempre...
Não morando!


O poeta

Do pó vieste, ao pó retornarás;
Por isso, ser pó é tá sempre...
Poetando!

A mente mente

Nem tudo que você sente
É verdadeiro ou real;
Sabe-se que a mente mente
E lhe causa um grande mal.

Mata e morro

Aquilo que se diz mata
É verde de esperança;
Também quando se diz morro
São dunas por semelhança.


O bom português

Stress é para inglês
Temos que ter aperreio
No nosso bom português
A cura vem sem receio.

Doenças imaginárias

Doenças imaginárias
Tem matado muita gente;
São coisas desnecessárias
Criada da própria mente.
Um hai kai

Eu não sou profeta
Um Hai Kai em meu juízo
Por isso eu preciso ser poeta!

Ascensão e queda do amor

Amor te amo
Amor te quero
Amor te clamo
Amor te venero;
A morte amo
A morte quero
A morte clamo
A morte venero.

Artes cínicas

Ator... tura
Atriz... teza
 
M. C. Garcia (Natal – RN)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A VIÚVA MACHADO: A LENDA DA PAPA-FIGO

ULINDA Lucina Machado morava estranhamente no porão duma casa antiga que ficava na Cidade Alta, em Natal. Lucina era mulher muito rica, dona de muitas terras que herdara de seus pais; mas era muito esquisita que ficou conhecida como “A Viúva Machado” por quase toda cidade. Até se transformou em lenda.

Contava-se que A Viúva Machado tinha as orelhas enormes e pelo tamanho delas teria vida longa. Na época, já ultrapassava os cem anos de vida. Porém, sua sina de rica coitada era viver isolada do mundo e das pessoas, exceto de Dona Marileon, sua criada e única companhia de todas as horas.    
 
A Viúva Machado sofrera uma grande decepção na sua vida quando ainda era muito jovem e bonita. Como assim contava Dona Marileon, uma negra que teria sido escrava naquele século de horror, era muito velha mas nunca revelou a sua idade para ninguém. Nem a família sabia do seu registro de nascimento. Sabe-se, portanto, que tinha cara de centenária e orelhas grandes como as da Viúva Machado, a quem ela prestava serviço há sete, talvez há oito décadas ou mais. Não se sabe ao certo quantas. Sabe-se portanto, que ela era tão velha quanto sua “horripilante” patroa.

Dona Marileon morava no povarejo do Galo, às margens da linha férrea Natal/Macau, acompanhada de seu filho Adud, pescador muito respeitado. Apesar da idade avançada de corcunda envergada feito pau de galão d’água, dona Marileon nunca deixou de trabalhar de enxada limpando o terreiro de casa, onde a cada quinze dias a erva daninha, insistentemente, num ervanço cruel invadindo todo  quintal. Com a cabeça quase a tocar nos pés não tinha dificuldades de ir, com as próprias mãos, afastando e juntando os montes de matos aparados com uma parcimônia taciturna de senil. Eis que seu ofício era parte da sua existência. Um estímulo de vida. O trabalho árduo e cruel num sol escaldante da manhã. Um gesticular taciturno de quem está sempre a conversar com Deus, entendido pelos mais novos geralmente como caduquice ou coisa de velho. Que nada! Sapiência própria de senil na filosofia do antes consigo mesma do que mal acompanhada, a exercitar o “conhece-te a ti mesmo”, socrático. Sempre a monologar, interiormente, como numa reza lenta e demorada de terço de maio.

M. C. Garcia 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ESPONTANEIDADE GENUÍNA

A Lucia Fidalgo

 À tarde, o sol se rendera às carregadas nuvens das dezesseis horas contumazes de Belém. A enorme praça defronte ao mercando central de Mosqueiro estava solitária e as barracas de alimentação   ensaiavam acanhadamente se abrir, após costumeira sesta das barraqueiras, todas, bem uniformizadas de branco e tocas. A única existência móvel, naquele ensejo de taciturnidade, eram três transeuntes que turistavam pelas ermas calçadas, rumo ao trapiche, onde alguns curumins sapeavam de sobre o para peito de madeira nas águas barrentas do Rio-praia.
 
 A praça de alimentação, diferentemente das dos shoppings da vida, é ornamentada de barracas ao ar livre que vendem de tudo que Belém pode oferecer de mais típico da sua região; e uma peculiaridade marcante é que, apesar de haver barracas do artesanato local, o destaque fica para as barracas de alimentação com tapiocas de vários tipos e gostos, vatapá, maniçoba, tacacá, sorvetes de cupuaçu, açaí, bacuri, bacaba, são tantos comezinhos que não se vê a hora de se deleitar de um bom prato típico daqueles.

    As/os três jovens: Lúcia, Otávio e Maurício retornam do pequeno porto e logo enchem os olhos de um brilho encantador, quando percebem que já existem algumas barracas abertas e, certamente, pela hora que transitavam a barriga já dera sinal de degustar algumas coisitas deliciosas.

Exaustos, sim. Esfomeados? Jamais. Por que “fazer boquinha” (comer) em Belém parece ser uma prática comum das pessoas por ali, isto é, também diante as diversidades e opções de comida existentes em cada esquina da praça, da rua, do mercado, do shopping, etc. E quão tentador é, que ninguém consegue escapar de cometer o pecado da gula, até mesmo, os mais ditos cristãos, não resistem. É uma coisa inacreditável!

Sentam-se à barraca de Áurea, porque todas são identificadas com o nome da dona do recinto comercial, e logo pedem para preparar três tapiocas recheadas a queijo e presunto com refrigerante da terra: tubaína, baré, guaraná.
 
Faço o mesmo itinerário da tríade de canto a canto da praça de posse da câmera digital registrando detalhes explícitos do lugar, assim como, a igreja matriz, o mercado municipal, o coreto, a estátua de Vênus, as barracas de alimentação e principalmente o estranho e irreverente banco amarelo dos Cornos, ornado com uma extravagante cabeça de boi, com chifres enormes; vou até ao pequeno porto de madeira de lei com toras que parecem mais de concreto.
 
Retorno à praça, e a tríade de jovens na barraca de alimentação já degustam deliciosas tapiocas. E como também sou filho de Deus, não resisto extrapolar já os quatro quilos adquiridos numa quinzena apenas. Agora, não são mais três, são quatro, mais sucos de laranja em copos duplos.
 
Aguardava o preparo da minha tapioca ao sabor da casa, quando dona Áurea me aponta que alguém está a me chamar, há alguns metros atrás de mim. Dirijo-me, naturalmente até a mulher, a qual, não difere muito das muitas mulheres das muitas cidades turísticas do Brasil que vivem a pedir, a mendigar, a se prostituir e a se utilizar do mesmo artifício quão desgastado, mas insistente, que é de pedir uma passagem para ir a tal e qual lugar que nunca irão chegar, porque isso, porque aquilo; aquela velha pendenga de sempre. Afirmo ajudar-lhe, mas que me aguardasse um pouco; estava sem dinheiro trocado, após pagar a despesa dar-lhe-ia o valor solicitado. Retorno ao banco e volto às costas para a pedinte.
    
Não decorridos mais que cinco minutos, a barraqueira mais uma vez me aponta que a suposta viajante continua a me chamar. De repente:
 
 - Desarerê catiploque! O homem aqui é casado! Sai fora!
  - Surpreendi-me com  a  espontaneidade   explosiva,  porém, genuína e pertinente de Lucinha, tia dos meus filhos, que  se  encontrava de frente para a estranha.    Sequer  olhei  mais para  a  pedinte. Não sei a que destino levou.
  - São seus filhos? Perguntou-me dona Áurea.
  - São sim senhora. Respondi-lhe sem hesitação.
  - E ela, é a sua esposa?  Insiste a indagar-me, mas agora, com um certo ar de curiosidade e constrangimento.
 
Não. É minha cunhada.   Concluí  reflexivo  pela  riqueza  do súbito.

*M. C. Garcia (Crônica inédita do livro CRÔNICAS DE UMA CRÔNICA VIDA, que foi lançado, na XXI Bienal Internacional do Livro de São Paulo, entre 12 e 21 de agosto de 2010).

sábado, 11 de setembro de 2010

MATINÊ CIRCENSE

Domingo, quinze horas. A última vez que procurei mudar de rotina, na qual há mais de vinte anos me via subjugado a ela, terminou me custando um preço - que não me onerou as minhas finanças, mas a minha consciência de trabalhador, acima de tudo. Pois, como todo homem do ofício eu teria que, no dia seguinte, justificar a falta ao expediente, justamente num dia em que era de suma importância para instituição na qual sou servidor e que a minha presença não era de suma, mas de uma importância generalizada do conjunto. Há vinte anos sempre fazendo a mesma coisa, terminei por esquecer o dia do aniversário da Patrícia.

Para elucidar melhor o que digo sobre a mudança de rotina é que, quando solteiro condicionei a minha vida inteira a reservar os dias de Domingo para o meu sagrado repouso das minhas “farras” de finais de semana. Tinha hora para sair, às sextas-feiras e, como bom católico, hora para retornar ao Domingo, de preferência pela manhã. Casado, porém, tenho procurado condicionar a mesma rotina de outrora que é ter o Domingo exclusivamente para o descanso, contudo nem sempre isso é possível. Visto que, quando se casa não mais se pode ter domínio sobre você mesmo naquilo que até parecia muito salutar para a vida.  Tudo porque você deixa de ser você mesmo. Você agora é você, mulher e filhos e estes são os que mais transgridem a rotina, revolucionam a vida de tudo e de todos. E adeus “apartamento azul”, adeus lugar sagrado para se meditar, conversar consigo mesmo. Não, nada disso existe mais... sem contar as investidas da mulher - eterna revolucionária nos destinos dos homens - que, com o seu jeito sutil, chega taciturna, como quem nada quer e de repente estar a dominar a situação. Não são raros os exemplos dessas investidas femininas. Remoto e presente são os exemplos de Eva, de Cleópatra, de Maria Bonita e de Marly, minha esposa. A mulher investe naquilo que é próprio de seu ethos e menos e distante do do nosso - homem que sempre se achou dono da situação -, mas que em nada vem a criar constrangimento ou desentendimento, porque se a faz, é pela justeza de seu amor  e pelo amor de todos.

Mas, afinal, e o matinê circense?

Sim, lá fui eu com mulher e filhos à matinê em pleno Domingo, à tarde. Não me lembro justamente o dia em que fui a um circo pela última vez, faz tanto tempo que hesito em dizer se fui mesmo ou se assisti pela tv. Em verdade, se fui ou não, o que tenho a dizer é que o tempo, no mundo circense, não mudou muita coisa não. Talvez para os nossos pequerruchos também estivessem a ocorrer o mesmo, ou seja, a sentir o que eu estava a sentir, mormente, para o mais novo que não desgruda da televisão e que está de saco cheio de ver e ouvir falar de “Beto Carreiro”, o dito circo que havia de se instalar justamente, aqui, na nossa terrinha.

E lá se deu, quinze horas e trinta minutos - meia hora após o previsto - tudo que eu já esperava e que os nossos filhos já sabiam de cor e salteado do que existe no mundo circense.  A dança do ventre, o equilibrista numa bicicleta com uma vara sobre um cabo de aço bem esticado, apresentação dos pobres e coitadinhos animais (os dálmatas, os chimpanzés, os cavalos), os eternos palhaços com seus risos congelados, os los Quênias, Cristal, a mulher que faz piruetas pendurada numa enorme cortina, e por fim, a apresentação do barulhento e ensurdecedor globo da morte.

Entretanto, a todo esse eterno espetáculo do viver circense, algo de insólito e de enigmático me apareceu - uma atração a parte. Eis que, assim que iniciou a primeira apresentação, surge entre as arquibancadas uma mulher morena, de cabelos e olhos pretos; baixinha, magra, um tipo de “Sônia Braga” de circo, com uma máquina fotográfica nas mãos a fotografar, com certa particularidade, as crianças. Com uma praticidade de “fotógrafo-repórter” ela procurava registrar a pessoa na sua intimidade. Ela fazia tudo isso com uma seriedade de pedra, não se via um sorriso sequer em sua face, pensei quanto ela carecia de um sorriso congelado de palhaço.

No final da última apresentação reapareceu a “Sônia Braga”, com a mesma carência de riso. Desta vez, voltava com uma lanterna e uns monóculos. Dirigia-se, justamente àquelas crianças que antes ela fotografara com a praticidade de “fotógrafo-repórter”. O monóculo era um chaveiro, um suvenir, com a foto da criança, como lembrança do circo no valor de cinco Reais. Não me lembro de ela ter nos fotografado com os nossos filhos - mágica circense? Só sei que ela foi à mãe dos meninos e entregou-lhe um monóculo, que ela (a mãe), também, não o quis comprar.

Apesar da seriedade da morena, sem dar sequer um sorriso, ela também não exprimia uma palavra. Chegava, entregava o monóculo e, se alguém comprava, ela recebia o dinheiro e saía taciturna, a executar a sua tarefa, tão melancólica, quanto o que está por trás dos risos congelados dos palhaços. Porém, estes, eram    profissionais da felicidade, em que o público dizia com todos os risos que valeria à pena transgredir as regras, tudo em nome das crianças.


M. C. Garcia  
Crônica inédita do livro CRÔNICAS DE UMA CRÔNICA VIDA, que foi lançado, na XXI Bienal Internacional do Livro de São Paulo, entre 12 e 21 de agosto de 2010).

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

NÃO ESTRAGUE O SEU FILHO

A minha amiga é aposentada e tem dois filhos. O marido seu é também aposentado e ganha quão razoavelmente bem quanto ela. Sentindo-se disposta e afeita às coisas filantrópicas, tem dedicado parte do seu tempo contribuindo, como voluntária, em ajudar pessoas carentes num hospital público do seu bairro. É enfermeira renomada, com muitos títulos, dentro e fora do país. Quanto aos pacientes, estes, adoram vê-la trabalhando naquele hospital. Se passa um dia sem aparecer, todos já começam a sentir a sua falta. A sua dedicação, o seu respeito e, acima de tudo, o seu carinho para com eles, é o que a faz uma pessoa distinta e querida por todos. Os seus colegas lhe têm uma admiração incomensurável, à sua dedicação, à sua experiência, ao seu amor...

Todavia, também ainda lhe sobra tempo para assumir compromissos extras e remunerados. Esta é a outra parte, com a qual preenche o seu tempo. Assim sendo, somando-lhe à sua aposentadoria, garante-lhe viver uma vida dignamente.

Com a sua vida bem estruturada pode desfrutar nos fins de semana do seu merecido lazer. Para isso, tem a sua casa de praia; dois carros na garagem, dois apartamentos; além da sua residência própria. Com tudo bem encaminhado, após trinta e cinco anos de merecidos trabalhos públicos, resta-lhe apenas, sem via de dúvida, investir na educação e no crescimento dos filhos. E nada mais natural e óbvio como o dever e a obrigação de todo pai, porém, que cada vez mais se escasseia dessa responsabilidade.

Trabalhou, cresceu. E por que não ajudá-los. Dar-lhes aquilo que não conseguiu ter. Fazer-lhes daquilo que não conseguiu ser. Afinal, eles eram os seus filhos. E, decididamente, os presenteou cada um, com um apartamento, registrados em seus nomes como garantia do futuro deles.

Quando seu filho fez dezoito anos o presente de aniversário foi um carro. Preocupada com a responsabilidade dele, decidiu por não registrar o carro no nome seu. Queria medir o teor de responsabilidade do filho. Apesar de universitário, segundo ano de Contabilidade; caseiro; de quando em vez, saía com os colegas de curso para o shopping; não bebe; não fuma; gosta de ir ao cinema, ao teatro de preferência com a mãe, que apesar de gostar, acha estranho. A maior parte do seu tempo se ocupa lendo; quando está em casa ou lê ou está no computador pesquisando para o curso.

Logo, logo, a minha amiga percebe que o seu filho merece o carro para o seu nome. Percebido e merecido. Tal qual ela percebeu, o seu filho lhe correspondeu com justeza. E uma vez responsável sempre dedicado aos estudos, às obrigações e, agora, ao carro.

A sua filha, ainda cedo, arranjou casamento que não durou mais que o tempo de lhe dá uma neta e voltar para dentro de casa. Não tinha ela como cuidar da filha, naquele apartamento, sozinha. Os avôs, nos dias de hoje, valem mais que a mais perfeita das babás do mundo. E pior, ainda teria que trabalhar. E com quem iria
deixar a menina? A solução mais salutar que vira era seus pais. E, assim sendo, ela, agora com a filha pródiga, de volta ao “lar doce lar”. Um aforismo ultrapassado, porém, de poder tradicional extraordinário para sanar as barreiras comuns do moderno dia a dia.

Há quatro anos que a minha amiga se deleita no dinâmico papel de mãe-avó-mãe. A neta pequerrucha faz o seu quarto aniversário e sua filha, recebe um carro de presente. A avó quer facilitar as coisas para filha. Quer atribuir-lhe responsabilidade de mãe, como ela foi. Agora, de posse do carro, pode passear com a pequerrucha nos finais de semana. Pode levá-la ao teatro, ao cinema, à praia sem incomodar nem a ela nem ao marido. Afinal, eles são apenas avós e não pais. Não era o “toma que o filho é teu” não. Não era absolutamente isso. Mas um convite à filha, como responsabilidade de mãe, que ela estava a delegar um poder que é inato.

Contudo, a filha era o paradoxo do irmão. Mas a minha amiga mesmo assim arrisca. Faz o mesmo, ou seja, dá o carro sem passar para o nome da filha. E desta vez parece agir mais certo ainda. Três meses de uso, o carro aparece batido. Detalhe, a filha, sem dinheiro para o combustível, alugava-o para mantê-lo e sanar algumas dívidas que adquirira.

A minha amiga, então, percebe que não estava lidando com um mesmo gênero de filho, descobre que cometera um grande erro. Decide tomar o carro da filha para colocá-lo à venda. O seu marido, condoído com a sua atitude, o seu radicalismo. Diz:

- Não faça isso, mulher! Vais mesmo vender o carro da nossa filha?
- Vou sim! Eu não aguento mais ver essa nossa filha com tanta irresponsabilidade...

A minha amiga pensativa... Sensibilizou-se com o marido. Resolve esconder o carro na casa de praia.
A netinha, sentindo a falta dos passeios de domingo à tarde, com a sua mãe, diz:

- Vovó, você vendeu o carro da minha mãe?!
 
Tomada por um profundo silêncio, entre ressentimento e dor, a minha amiga deixa uma lágrima brotar de seu rosto. 
 
Enquanto, a sua filha, apenas permanece a olhar para as duas num silêncio de mãe e filha, de jovem e adulta, de dúvida e certeza.
 
M. C. Garcia  
Crônica inédita do livro CRÔNICAS DE UMA CRÔNICA VIDA, que será lançado em breve, na XXI Bienal Internacional do Livro de São Paulo, entre 12 e 21 de agosto de 2010.

sábado, 24 de julho de 2010

A MENTIRA VERDADEIRAMENTE MENTIROSA COMO VERDADE

Debruço-me a refutar sobre a verdade do homem, refletida em mim mesmo, enquanto ser vivente neste mundo. Certamente, um pouco da minha verdade foi herdada da verdade que meu pai praticou enquanto convenção, porque precisei crescer alicerçada pela sua verdade para me fazer homem único e exclusivo de mim mesmo. E assim, desvendar a minha própria verdade de ser e não de estar como homem propriamente. Digo, a verdade de ser, porque a verdade de si só pode ser real, enquanto verdade de ser, e não de estar no mundo.
Desvendo que a verdade do homem (no mundo) é a verdade de estar no mundo. Por isso, a verdade do homem é a verdade de estar sempre. Enquanto se estar no mundo, vive-se da verdade de homem e toda verdade humana se justifica para se estar no mundo. A verdade de homem é convencionada, por isso pode se convencionar uma mentira como verdade, porque o que vale é o poder da convenção feita pelo homem. Porém, a verdade de homem é uma mentira para ele próprio, mas adotada como verdade para o outro porque desconhece as intenções e as circunstâncias, pelas quais, essa verdade foi convencionada e também, por haver outros fatores que os faz aceitar para estar aceito no mundo.

A verdade de meu ofício é uma verdade de homem, porque tem o tempo e a medida do próprio homem, assim como, é mutável, contraditória, paradoxal, efêmera, ilusória, fictícia, aparente, virtual, simbólica, metafórica, convencional acima de tudo. Tudo uma verdade de mentira, de faz de conta, de brincadeira qual eterna criança encantada num mundo de virtualidades na era do computador, num mundo de coisas virtuais, fictícias, utópicas de puras ilusões, metáforas e simbologias, quão efêmeras quanto à verdade de estar literalmente no mundo de Alice no País das Maravilhas, no mundo de Matrix ou na eterna mitológica caverna platônica; numa verdadeira mentira, enquanto verdade de homens de todas as idades. 

M. C. Garcia é poeta e filósofo


segunda-feira, 5 de julho de 2010

RESISTÊNCIA À MODA?

 Não me lembro muito bem o dia em que estive na Cidade Alta, mas sei que foi num fim de semana desses, literalmente num sábado. Assim sendo, fui a um encontro o qual acontecia uma vez por mês, no último sábado à tarde, no espaço cultural Bazarte (hoje extinto, por fazer parte de mandato de vereador, o qual, já não o pertence mais, graças a Deus) que ficava na rua Princesa Isabel. 

 Qual não foi a minha surpresa, quando cheguei ao calçadão da rua João Pessoa, no centro da Cidade Alta, deparo-me com um deserto de rua, digno de feriadão. Justamente como acontece nas grandes cidades do mundo, acima de tudo brasileira. Só que, não se tratava de nenhum feriado, era simplesmente uma rotina peculiar da minha cidade, sobre a qual eu não estava muito a par, após passar algum tempo ausente. Estávamos em dias de trivialidades eternas de cidades movidas pelo capital, com exceção da polis natalense que apesar de rimar com ele, (o capital) simplesmente não o cultua com o mesmo poder e ambição das demais metrópoles do mundo modernamente capitalista. 

            A Cidade Alta é um paraíso de cidade, digo isso, porque vivi dez anos em São Paulo e morei três meses no Rio de Janeiro. Todavia, se ela não entrar na onda dos “shoppings” da vida, vai terminar se transformando numa autêntica Ribeira e, dentre em breve, estarão a propagandear o novo slogan: “Revitalização da Cidade Alta”. 

            Afinal, pelo muito que se fez e se tem feito ou se faça pela Ribeira, afirmo que em nada mudará a cara ou a situação do centenário bairro. Que alarguem as suas ruas, que façam pavimentação ou drenem, ou construam mil pontes sobre o Potengi ligando-a à Zona Norte, ou que coloquem em cada esquina um shopping center, ainda assim ele (o Bairro) jamais deixará de ser a Ribeira. Porque a Ribeira foi o que foi e só é e será o que é pelo que está nos registros, através das fotografias, dos quadros belíssimos do pintor Pedro Grilo Neto, das crônicas e das histórias contadas por Câmara Cascudo, mormente nas brigas entre xareleiros e canguleiros. Aqui sim, é onde reside e irá residir a verdadeira Ribeira. 

          Se andar na Cidade Alta, em Natal, não se compara, nem de longe, se andar em qualquer subúrbio de São Paulo. Eis que, por aqui, em Natal, as ruas são vazias de camelôs e as poucas gentes que transitam, caminham numa paciência interminável de Jó, e até mesmo nos horários mais críticos está longe, muitíssimo distante desta (cidade) se comparar a Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro, insuportável de caminhar ao sábado de manhã à tarde, isto é, lá pelos idos da década de oitenta.

          Aqui, sábado, à tarde, é hora de se lavar as lojas e as calçadas, e de se arrumar as coisas, os troços - como dizemos nós por aqui -, onde não se vendem nem se compram absolutamente nada.

          Natal se faz tão pacata, quanto o grande centro financeiro paulista, em sua avenida mais paulista de todas, em pleno período de feriadão. A Cidade Alta tem a cara da sua irmã centenária, a Ribeira; talvez, seja porque eles (bairros) ainda não aderiram à moda dos “shoppings” da vida, ou senão se achem, acredito, demasiadamente velhos para fazerem uma boa plástica, em colocarem um siliconezinho aqui, um botoxinho  ali, ou, uma lipozinha acolá?

Natal, 29 abr. 02

M. C. Garcia é Poeta e Filósofo

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O HOMEMORCEGOMEM

 Por M.C. GARCIA, poeta e filósofo

NUMA decrépita Biblioteca margeada por várias mangueiras, onde raras vezes aparece alguém para estudar, apesar do espaço agradável para leitura, termina atraindo outra espécie de animal: morcegos. Estes, atraídos pelo doce cheiro dos frutos, competem com um único leitor: Memor. Homem aposentado de meia idade que faz da leitura o seu lazer exclusivo.

Naquela época do ano a velha biblioteca é um lugar que atrai apenas os noctívagos que se abrigam durante o dia. Visto que o espaço fica sempre fechado eles se sentem seguros nas salas escuras.

Ao cair da tarde, Memor gosta de desfrutar a vida lendo bons livros de literatura, de preferência romances modernistas como de Jorge Amado e outros.

Certa vez estando a sós no seu taciturno mundo de de leitura, Memor sentiu um vento frio soprar-lhe a nuca. 
Um frio que lhe correu toda espinha deixando-o com os nervos a flor da pele e o coração aterrorizado, a palpitar com o súbito. Seus cabelos e pelos dos braços arrepiados eram a denúncia do seu terror. Mas logo à sua frente, descobriu a causa de tudo aquilo.

Era um morcego que num rasante de bicho alado, peitado e danado, fora pousar num caibro,




sexta-feira, 11 de junho de 2010

REFLEXÃO À VIDA



Somos, por natureza, seres dotados de otimismo. Por isso, a vida se justifica pela constância do presente, onde a sua efemeridade revela-se em intermináveis pretéritos de presentes-futuros contabilizados pelo movimento perene da terra em torno do astro-rei.

O que é a vida senão a esperança taciturna e despreocupada de viver a cada grã momento o movimento eterno de tudo e em tudo que há vida; assim como na semente que germina, na manhã que culmina irradiante e no amor que aflora no genuíno coração de menina; e que, acima de tudo, se revela como um mistério Divino, não só nas coisas grandiosas, mas também, nas coisas pequeninas...

A vida é um jogo, onde cuja adversária é a morte, a qual só existe em função da própria vida; a vida não pode doar-se gratuitamente à morte, e, nem tampouco, a morte quer a vida de graça. Pois tudo tem um preço a ser pago, mormente, quando se entra no inexorável jogo do nascer. Portanto, o objetivo da vida é que se viva intensamente o aqui e o agora em detrimento de um futuro-mais-que-perfeito. Enquanto, o objetivo da morte é que se morra, o quanto mais rápido, melhor.

A morte ronda 24 horas a vida, à espera de uma oportunidade fatal; às vezes, ela se reveste de formas diversas, possíveis e impossíveis (o seu jogo); é comum, muitas vezes, ela aparecer revestida de Religião (uma forma inteligente e prática de pegar e levar muitas vidas facilmente); outras vezes, ela surge como vício (se diz até que toda vida tem um vício), quando, na verdade, vício algum justifica à vida; mas, apenas, ao vital interesse da própria morte. Contudo, o único, o exclusivo, o absoluto de todos os vícios cabe à extraordinária exceção da sapiência do vício de viver. Isto é, o vício de viver intensamente bem, a vida. Eis, então, o vício único, exclusivo, absoluto que incomoda a morte completamente e que a deixa revoltadíssima; por isso, como vingança, ela se reveste dos mais vis e nocivos vícios, os quais, muitas das vidas os tem como prazer ou deleite do bem viver. Vícios pelos quais muitas das vidas são destaques, porém, são vícios que só dão ênfase à “vida” e mais vidas à morte. Destes vícios viveram, intensamente, os Românticos; destes vícios vivem, intensamente, artistas ou não-artistas que fumam, que bebem, que se drogam; destes vícios vivem, intensamente, os homens de posição social, de status, de poder, cuja ambição é a sedenta fome pelo vil metal - o capital. A morte não gosta da morte cedida, gratuitamente, pela “vida” (como levam a crer alguns suicidas ou covardes). Tal comportamento é subestimar o poder da morte ou da sua inteligência de eterna perscrutadora, infalível, de vidas.

A quem interessa o fim de um covarde à vida? Se nem a vida nem a morte o querem nem mesmo por piedade? A quem, afinal, interessa o covarde fim de um suicida?... O poder da vida é ludibriar a morte e esta, à vida; como num verdadeiro jogo interminável entre ambas. A vida só vence a morte vivendo intensamente até a última gota, o último suspiro de vida com extrema senilidade, porque só a velhice extrema e sadia faz da morte uma derrotada; à morte, não interessa anciãos experientes e sábios; interessa-lhe jovens sadios, fortes e inteligentes. Uma vida intensamente vivida é de elevadíssimo grau de existência que, para a morte, é a eternização do seu inexorável sofrimento, e do seu iminente fracasso no jogo contra a vida. Por isso, vivamos intensamente a vida até o último instante da extrema senilidade sadia; pois que, à morte, não lhe interessa um exército de senis felizes e moribundos a rirem desgraçadamente da sua cara (cara da morte) de perdedora!!!

Eis que, assim, velho ou muito velho não morre, simplesmente, retorna ileso para o lugar de onde veio (sonho, nada, tudo, éden, infinito, céu, eternidade...), porque cumpriu dignamente o seu papel (o de viver) na terra. Ou seja, viveu intensamente até o último suspiro que lhe fora merecido.

*MC GARCIA - Poeta e Filósofo